Saturday, November 8, 2008

Módulo 3

Do seu ponto de vista fará ou não sentido este sistema de procedimentos para a tornar a formação mais eficiente?

Todos os modelos e sistemas de procedimentos fazem sentido quando tornam a formação mais eficiente.
O modelo de Gagne ou qualquer outro, só são eficazes se se adaptarem à realidade da formação, ou seja, adaptarem-se ao conteúdo e objectivo de determinada acção de formação.
A minha prática e experiência formativa que já tem 17 anos, divide-se em duas actividades: Especialista de Treino Fisiológico na FAP e Instrutor de Condução Automóvel como actividade civil.
Comparando esta minha prática com o modelo de Gagne, verifico que se poderá aplicar à formação com algumas adaptações tendo em conta vários factores, tais como: tipo de formandos, objectivos da formação, motivação para a formação, tipo de formação (prática ou teórica), meios didácticos disponíveis, etc.
Na formação que dou ao pessoal navegante da FAP, no âmbito da Fisiologia de Voo, este modelo aplica-se nas aulas teóricas, começando logo pela grande importância da chamada de atenção, ou motivação dos formandos, na medida em que na sua maioria vem frequentar esta formação por obrigação, visto ser necessária para continuar apto para o voo, constituindo por isso um “grande frete” estar ali a “aturar” o formador, principalmente quando se trata de estágios de refrescamento. A definição de objectivos aplica-se em pleno, mas já a recordação da matéria dada anteriormente pouco se aplica, tendo em conta que as várias disciplinas não são sequenciais e pouca ligação existe, mas em alguns temas é necessário recordar assuntos falados anteriormente. Quanto à informação que é dada tem por vista focar os alunos no assunto que se vai falar e inserir no contexto do estágio, e depois guiar a aprendizagem através de técnicas motivantes, que consistem muito na participação dos formandos, através de experiências vividas pelos tripulantes e aplicar essas experiências ao tema da aula. O aliciar à prática tem algum peso, na medida em que são posteriormente utilizados simuladores que vão colocar o formando a aplicar na prática, o que está a ser transmitido na teoria. Quer na aula teórica quer na prática é comum os alunos receberem feedback, através de informações, alertas e correcções relativamente a alguns aspectos mais pertinentes e relacionados com a sua actividade específica e dúvidas que coloquem. Por vezes uma palavra de incentivo reforça a aprendizagem. Quanto à avaliação, não se aplica porque não é o objectivo da formação avaliar no final, mas sim transmitir conhecimentos para serem utilizados na actividade profissional para a tornar mais segura. Nos estágios básicos os alunos são chamados a fazer um pequeno teste com perguntas de múltipla escola, sem classificação, apenas de discutem em grupo as questões falhadas que serve para ajudar à retenção dos conhecimentos. Nos estágios de refrescamento não é feito qualquer teste, existe um “debriefing” no final do estágio onde podem ser colocadas dúvidas. Trata-se de Treino Fisiológico e não de um curso de fisiologia de voo.
No ensino de condução, as motivações são diferentes. O formando está porque quer e tem interesse em estar, e é sua intenção obter a carta de condução o mais rápido possível.
Neste caso a chamada de atenção inicial já não necessita de ser tão intensa e os objectivos já são conhecidos e estão definidos, embora cada sessão tenha os seus objectivos específicos. Todo o restante processo se desenvolve segundo o modelo referido, com especial ênfase no aliciamento à prática, porque a finalidade é exactamente conduzir um veículo com segurança. A avaliação é contínua quer na teoria quer na prática, e a avaliação final não é feita pelo formador mas sim por outra entidade. Nesta actividade formativa, principalmente na componente prática, cada caso é um caso e para cada formando o formador tem que encontrar o melhor modelo de aprendizagem. O sucesso do processo da aprendizagem, depende muito do método utilizado e da sua adaptação ao formando que apresenta variáveis como a idade, estrato social, capacidades cognitivas, capacidades físicas, cultura, motivação, atitudes pré-adquiridas, etc.
Considero que para mim tem sido um desafio constante onde tive de aprender a utilizar o modelo mais adequado à acção de formação onde estou inserido.
Por exemplo, numa aula prática dentro de um automóvel, se falar normalmente, para uns é baixo para outros é alto, se falar baixo alguns não ouvem e portanto não reagem, outros ouvem mal e tenho que falar alto, mas assim outros dizem que estou a gritar com eles e ficam nervosos, e alguns (as) …choram. É espectacular.

Da sua experiência como Formando, refira uma acção de formação em que gostou particularmente de tomar parte.

No Centro de Medicina Aeronáutica está instalada a Secção de Treino Fisiológico, (STF) que tem por missão, entre outras, ministrar Estágios Básicos de Fisiologia de Voo a todo o pessoal navegante da FAP, e ainda Estágios de Refrescamento para o mesmo pessoal com validade de 3 ou 5 anos, conforme se trate de pilotos de aviões a jacto ou tripulantes das restantes aeronaves respectivamente.
Por estar colocado nesta secção, recebi formação inicial em Fisiologia de Voo e Simuladores, num curso com duração de 4 meses e mais um ano em “on Job training”, onde os formadores foram os fisiologistas mais experientes e com certificação NATO, colocados na secção.
No meu terceiro ano de actividade, chegou a altura de também receber a certificação NATO, visto que os estágios ministrados na secção são certificados e são também frequentados por tripulantes de outros países, dando a mesma equivalência a estágios frequentados em qualquer país NATO.
Para obter esta certificação, fui nomeado para frequentar um curso que se realizou em Brooks, AFB, San António, Texas, USA, com uma duração de cerca de 3 meses.
Pelo que já sabia através de camaradas que tinham frequentado aquele curso, o nível de conhecimentos transmitidos, nada adiantava à formação que já tinha recebido na FAP, pelo que seria apenas um passeio e uma oportunidade de conhecer o Texas, os “cowboys” e não só.
Na verdade assim aconteceu. Era o único estudante estrangeiro e os meus companheiros de turma eram o que na FAP equivalente aos praças no final da recruta e que depois frequentam o curso para a especialidade.
Logo no dia da chegada, deparei-me com o sotaque texano com sonoridade mexicana, ao que chamam “tex-mex”, do qual não percebia quase nada, a não ser que falassem mais devagar. Não entrei em pânico mas quase. Perguntei-me se afinal sabia o não inglês.
Após alguns dias (poucos) o “tex-mex” deixou de ser tão estranho, e como os formadores não eram todos texanos, conseguia entender tudo.
O problema estava no conteúdo do curso que não tinha nada de novo para mim, confirmando-se o que já me tinha sido dito anteriormente, pelo que foram quase dois meses a “lutar arduamente” para me manter acordado durante as aulas.
O conteúdo do curso na FAP é bastante mais completo, e disso logo os americanos se aperceberam pelas notas que obtive nos primeiros testes de avaliação. Assim, nas últimas semanas, deixei de assumir papel de formando e passei gradualmente a auxiliar a formação, principalmente nas aulas práticas onde assumi funções plenas de formador.
No final, e como acontece nos cursos da USAF, seria atribuído um Diploma de Distinção (Distinguish Graduate) ao melhor aluno. Estava aqui um problema para o director de curso, que resolveu diplomaticamente a situação atribuindo um diploma ao “portuga” e outro ao melhor aluno americano.
Aqui está um caso caricato onde de formando se passa a formador dentro do mesmo curso.

Carlos Simões
SAJ/MMA

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